A pensão compensatória depois do divórcio em Espanha: quem a recebe, durante quanto tempo e como se extingue
Um dos dois fez carreira durante o casamento e o outro deixou um emprego para criar os filhos e tratar da casa. Trinta anos depois divorciam-se, e a pergunta a que não respondem nem um recibo de vencimento nem uma escritura é o que é devido ao segundo. O direito espanhol não lhe chama alimentos nem aplica uma fórmula. Chama-lhe pensão compensatória, pensión compensatoria, e liga-a a um único facto: o desequilíbrio que o divórcio deixa entre os dois. Esta nota explica quem tem direito a ela, o que o juiz pondera, quanto e durante quanto tempo, a compensação distinta que existe para os casais em separação de bens, como a pensão se altera e como se extingue, com três acórdãos recentes do Supremo Tribunal espanhol lidos na íntegra.
O que é, e o que não é
O Código Civil dá o direito numa frase: El cónyuge al que la separación o el divorcio produzca un desequilibrio económico en relación con la posición del otro, que implique un empeoramiento en su situación anterior en el matrimonio, tendrá derecho a una compensación, o cônjuge a quem a separação ou o divórcio cause um desequilíbrio económico em relação à posição do outro, que implique um agravamento da sua situação anterior no casamento, tem direito a uma compensação (artigo 97). Pode consistir em una pensión temporal o por tiempo indefinido, o en una prestación única, uma pensão temporária ou por tempo indeterminado, ou uma prestação única.
O Supremo Tribunal acrescenta o que o direito não é. Não decorre de um dos cônjuges simplesmente ganhar mais: la simple desigualdad económica no determina de modo automático un derecho de compensación, a simples desigualdade económica não determina automaticamente um direito a compensação. O tribunal disse que la pensión compensatoria no es un instrumento puramente indemnizatorio, a pensão compensatória não é um instrumento puramente indemnizatório, que não serve para igualar dois rendimentos ou dois patrimónios, e que não é em rigor uma pensão de alimentos (acórdão 1634/2025, de 13 de novembro). Os alimentos dos filhos são outra obrigação, com outras regras, explicada na nossa nota sobre a pensão de alimentos dos filhos.
O que faz é colocar o cônjuge prejudicado en una situación de potencial igualdad de oportunidades laborales y económicas respecto de las que habría tenido de no mediar el vínculo matrimonial, numa situação de potencial igualdade de oportunidades de trabalho e económicas em relação às que teria tido se não fosse o vínculo matrimonial. A perda que o tribunal procura é concreta: direitos económicos ou expectativas legítimas de que um dos cônjuges abdicou por dedicar mais tempo à família.
O desequilíbrio mede-se num dia determinado. Nas palavras do tribunal, el desequilibrio que da lugar a la pensión compensatoria debe existir en el momento de la separación o del divorcio, o desequilíbrio que dá lugar à pensão compensatória tem de existir no momento da separação ou do divórcio, e o que acontecer depois não pode criar uma pensão que então não era devida. É por isso que se presume que já não há desequilíbrio num casal que vive separado há anos com finanças independentes, e é por isso que a presunção cai quando um dos dois continuou a sustentar o outro durante todo esse tempo.
O que o juiz pondera
Na falta de acordo, o juiz fixa o montante atendendo a nove circunstâncias que o artigo 97 enumera. O tribunal usa as mesmas nove para decidir se há desequilíbrio, quanto vale e se a pensão deve ter data de fim. O acórdão de 2025 aplica-as uma a uma a um casal real, e o seu raciocínio é o guia mais claro de como funcionam.
| A circunstância do artigo 97 | O que o tribunal apurou no caso de 2025 |
|---|---|
| Os acordos a que os cônjuges tivessem chegado | Não houve acordo sobre o divórcio, mas desde que deixaram de viver juntos ele enviava-lhe 6 000 e depois 4 000 euros por mês |
| A idade e o estado de saúde | Ele tinha 60 anos e ela 61 |
| A qualificação profissional e as probabilidades de conseguir emprego | Ele era um diretor de fotografia premiado e ainda em atividade; ela tinha formação de auxiliar administrativa e estava há 24 anos sem trabalho remunerado |
| A dedicação passada e futura à família | Ela criou os dois filhos, o que lhe permitiu a ele seguir a carreira com ausências frequentes |
| A colaboração na atividade profissional do outro cônjuge | Ela tratava da papelada dele |
| A duração do casamento e da vida em comum | Um casamento de 33 anos, cerca de 24 deles de vida em comum |
| A eventual perda de um direito a pensão | Ela tinha 10 anos de contribuições, menos de quinze, e perdera a possibilidade de uma pensão da Segurança Social |
| O património, os meios e as necessidades de cada um | Ele declarou para 2022 um rendimento líquido de cerca de 76 040 euros; ela não tinha rendimentos |
| Qualquer outra circunstância relevante | Estavam casados no regime de gananciales, pelo que ela participava no que foi ganho e comprado durante o casamento |
O primeiro tribunal tinha-lhe atribuído 1 000 euros por mês durante um ano, e o tribunal de recurso 2 000 euros por mês por tempo indeterminado. O Supremo Tribunal fixou 1 400 euros por mês sem limite temporal.
Quanto
Não há tabela oficial nem percentagem do rendimento. O Código enumera circunstâncias, os tribunais ponderam-nas, e o Supremo Tribunal não revê o montante fixado em recurso salvo se o raciocínio for ilógico. Dois montantes recentes mostram o leque do que o mesmo método produz, e nenhum é uma tarifa: os 1 400 euros por mês do caso de 2025, e 600 euros por mês num caso de 2024 em que a mulher recebeu também 100 000 euros ao abrigo de outra regra, explicada mais abaixo (acórdão 229/2024, de 21 de fevereiro).
O que a sentença ou o acordo têm de fixar também está no Código: la periodicidad, la forma de pago, las bases para actualizar la pensión, la duración o el momento de cese y las garantías para su efectividad, a periodicidade, a forma de pagamento, as bases para atualizar a pensão, a duração ou o momento em que cessa e as garantias da sua efetividade.
A partilha dos bens do casal conta. Se estavam casados no regime de gananciales, a liquidação puede suponer la atribución de bienes productivos que hagan desaparecer la situación de desequilibrio, pode significar a atribuição de bens produtivos que façam desaparecer a situação de desequilíbrio, e os tribunais reduziram ou extinguiram pensões por essa razão. No caso de 2025 esperava-se que a venda da casa de família deixasse a cada cônjuge cerca de 195 250 euros, e o tribunal contou-o entre as suas razões para o montante que fixou.
Durante quanto tempo
Uma pensão com data de fim é uma possibilidade, não a regra, e desde 2005 o Código nomeia-a expressamente. Para a fixar, o tribunal tem de poder dizer quando o desequilíbrio será superado, e o Supremo Tribunal é exigente com esse prognóstico: Tal juicio prospectivo o de futuro deberá llevarse a efecto con prudencia, ponderación y con criterios de potencialidad real, determinada por consistentes índices de probabilidad, esse juízo prospetivo deve ser feito com prudência e ponderação e com critérios de potencialidade real, assente em índices consistentes de probabilidade. Uma suposição não basta.
A idade pesa muito. Nos casos que o tribunal cita como exemplos de pensões sem limite temporal, as beneficiárias eram mulheres dos 53 aos 61 anos, ou com casamentos de vinte e cinco anos ou mais atrás de si, há muito afastadas do trabalho remunerado e várias com uma incapacidade reconhecida. De uma mulher de 61 anos disse que la edad que tiene no juega a su favor, sino en su contra, a idade que tem não joga a seu favor, mas contra ela: o que importa não é se poderia desempenhar um trabalho, mas se o conseguiria encontrar. E provar que o outro não fez qualquer esforço para encontrar trabalho cabe ao cônjuge que o alega.
Por tempo indeterminado não quer dizer vitalícia. La fijación de una pensión, como indefinida en el tiempo, no impide se deje sin efecto o que sea revisable por alteración de fortuna y circunstancias, fixar uma pensão como indeterminada no tempo não impede que seja deixada sem efeito ou revista se as fortunas e as circunstâncias mudarem.
Separação de bens: a compensação pelo trabalho em casa
Os casais em separação de bens, no caso abaixo por capitulaciones assinadas dias antes do casamento, têm uma segunda regra. Cada cônjuge fica com o que ganha, ambos têm de contribuir para os encargos do lar, e o Código acrescenta: El trabajo para la casa será computado como contribución a las cargas y dará derecho a obtener una compensación que el Juez señalará, a falta de acuerdo, a la extinción del régimen de separación, o trabalho para a casa conta como contribuição para os encargos e dá direito a uma compensação que o juiz fixará, na falta de acordo, na extinção do regime de separação (artigo 1438).
O acórdão de 2024 mostra como funciona. A mulher tinha deixado um emprego administrativo quando esperava a filha e tratou da casa sozinha durante mais de dezasseis anos, enquanto o marido ganhava e comprava bens em seu nome. O tribunal confirmou 100 000 euros e repetiu três pontos da sua doutrina. O cônjuge que paga não precisa de ter enriquecido: no se exige un incremento patrimonial del deudor, não se exige um aumento do património do devedor. Um período de trabalho remunerado no início do casamento não elimina o direito; conta quando se fixa o montante. E para pôr um número num trabalho que não tem preço, o tribunal puede partirse de un índice objetivo, entre los que se encuentran el salario mínimo interprofesional, pode partir de um índice objetivo, entre os quais o salário mínimo.
Os dois direitos podem ser pedidos em conjunto, e um afeta o outro. Como os 100 000 euros aumentavam os meios dela e reduziam os dele, o tribunal baixou a pensão compensatória de 950 para 600 euros por mês, ainda sem limite temporal.
Alterá-la, substituí-la, acordá-la
Uma vez fixada em sentença, a pensão sólo podrá ser modificada por alteraciones en la fortuna de uno u otro cónyuge que así lo aconsejen, só pode ser modificada por alterações na fortuna de um ou de outro cônjuge que assim o aconselhem (artigo 100). E a qualquer momento os dois podem acordar substituí-la por la constitución de una renta vitalicia, el usufructo de determinados bienes o la entrega de un capital en bienes o en dinero, a constituição de uma renda vitalícia, o usufruto de determinados bens ou a entrega de um capital em bens ou em dinheiro (artigo 99).
O acordo vem em primeiro lugar na lista do próprio Código, e o tribunal descreve o direito como incardinable dentro de la esfera dispositiva de los cónyuges, situado na esfera de disposição dos cônjuges. Os limites também estão no Código: o juiz aprova o acordo dos cônjuges salvo se for danoso para os filhos ou gravemente prejudicial para um dos cônjuges (artigo 90), e as capitulaciones não podem conter uma cláusula contrária à lei ou que limite a igualdade de direitos de cada cônjuge (artigo 1328). Se uma renúncia assinada anos antes do divórcio se manterá decide-se caso a caso, e é uma pergunta a fazer a um jurista antes de confiar nela.
Como se extingue
O Código dá três causas: o direito extingue-se por el cese de la causa que lo motivó, por contraer el acreedor nuevo matrimonio o por vivir maritalmente con otra persona, quando cessa a causa que o motivou, quando o credor contrai novo casamento ou quando vive maritalmente com outra pessoa (artigo 101). Não se extingue com a morte de quem paga: El derecho a la pensión no se extingue por el solo hecho de la muerte del deudor, embora os herdeiros possam pedir ao juiz que a reduza ou suprima se a herança não a puder suportar ou se afetar a sua legítima.
A data a partir da qual se extingue depende da causa, e um acórdão de junho de 2026 põe as duas regras lado a lado (acórdão 1038/2026, de 29 de junho). O novo casamento e a vida em casal com outra pessoa pertencem à primeira: o tribunal recorda um acórdão do pleno de 2018, proferido num caso de vida estável com um novo companheiro, segundo o qual a causa que consiste em contrair novo casamento produce su efecto desde que ese hecho tiene lugar, con independencia de la fecha en que es conocida esa situación o de cuándo se interponga la demanda, produz o seu efeito desde que esse facto ocorre, independentemente da data em que a situação é conhecida ou de quando a ação é proposta; e um acórdão de 2019 que considerou indevido tudo o que foi pago depois da primeira decisão que declarou extinta a pensão. Uma alteração nas finanças da credora pertence à segunda. No caso de 2026 uma ex-mulher tinha encontrado um emprego estável; um primeiro tribunal manteve-lhe a pensão, um tribunal de recurso extinguiu-a dois anos depois, e o ex-marido pediu de volta os 17 400 euros que tinha pago entretanto. Perdeu: nas palavras do tribunal, cada resolución produce efectos desde que se dicta, cada decisão produz efeitos desde o dia em que é proferida, pelo que o que pagou ao abrigo da sentença anterior era devido e não é restituído.
A lição prática é a mesma nos dois casos: a pensão é extinta por um tribunal, a pedido de quem paga, e enquanto uma sentença não disser outra coisa a obrigação mantém-se.
Impostos, numa frase
Para o imposto sobre o rendimento, uma pensão compensatória paga por decisão judicial pode reduzir a matéria coletável de quem a paga e é rendimento do trabalho para quem a recebe (Ley 35/2006, artigos 55 e 17); como isso se traduz numa declaração concreta é uma pergunta para um consultor fiscal.
Casais com mais de um país
Quando os cônjuges vivem em países diferentes, dois instrumentos decidem onde o pedido é julgado e que lei o rege. O regulamento europeu sobre obrigações alimentares atribui competência aos tribunais do lugar onde o requerido ou o credor tem a sua residência habitual, ou ao tribunal que conhece do divórcio quando o pedido é feito com ele (Regulamento (CE) 4/2009, artigo 3). A lei aplicável resulta do Protocolo da Haia de 2007: em regra a lei do país onde o credor tem a sua residência habitual, com uma norma especial entre cônjuges que permite a qualquer deles opor-se quando outra lei, em particular a da sua última residência comum, apresenta uma ligação mais estreita com o casamento, e com margem para os dois escolherem a lei por escrito (artigos 3, 5 e 8). Saber se uma pensão compensatória espanhola é uma obrigação alimentar nesse sentido europeu é a primeira coisa a esclarecer, porque o regulamento diz que o termo deve ser interpretado de forma autónoma, com um significado europeu próprio. A competência e a lei aplicável ao divórcio em si são tratadas no nosso guia sobre o divórcio em Espanha.
O que faz a nossa equipa de família
A nossa prática de família trata de divórcio, guarda e alimentos, incluindo famílias com dois países envolvidos: aconselhamos sobre que tribunais e que lei se aplicam, negociamos acordos sempre que é possível e litigamos nos tribunais espanhóis quando é necessário. O trabalho está descrito na nossa página de direito da família. Se nos escrever a propósito de uma pensão compensatória, envie a certidão de casamento, as capitulaciones se as houver, as últimas declarações de rendimentos dos dois cônjuges e, se o divórcio já estiver decidido, a sentença ou o acordo.
Perguntas frequentes
O meu marido ganha três vezes mais do que eu. Tenho direito a uma pensão compensatória?
Só por essa razão, não. A diferença de rendimentos tem de vir acompanhada de um agravamento da sua posição causado pelo divórcio, normalmente porque abdicou de trabalho ou de perspetivas pela família. O juiz pondera as nove circunstâncias do artigo 97, e a diferença de ganhos é apenas uma delas.
Durante quanto tempo é paga?
Durante o tempo que o acordo ou a sentença disserem. Um tribunal só pode fixar uma data de fim se puder prever razoavelmente quando o desequilíbrio será superado; quando não pode, como acontece com um cônjuge perto dos sessenta anos que não trabalha há décadas, fixa a pensão sem limite, e ela pode ainda ser revista mais tarde.
A minha ex-mulher vive agora com um novo companheiro. Posso deixar de pagar?
Viver maritalmente com outra pessoa extingue o direito, mas é um tribunal que o declara. Peça a extinção assim que o puder provar e continue a pagar até haver decisão: o Supremo Tribunal entendeu que esta causa produz efeito desde o próprio facto, e num caso considerou indevido o que foi pago depois da primeira sentença que declarou extinta a pensão.
Casámos em separação de bens e eu fiquei em casa. Tenho direito a alguma coisa?
Possivelmente a duas. O trabalho para a casa dá direito a uma compensação quando o regime termina, tenha ou não o seu cônjuge enriquecido, e se o divórcio a deixar além disso em pior situação pode pedir uma pensão compensatória. A primeira é tida em conta ao fixar a segunda.
Podemos acordar uma quantia única em vez de um pagamento mensal?
Sim. O próprio artigo 97 admite uma prestação única, e uma pensão já fixada pode ser substituída a qualquer momento, por acordo, por uma renda vitalícia, o usufruto de bens ou um capital.
Informação geral sobre o direito em vigor em outubro de 2026 (Código Civil, artigos 90, 97, 99, 100, 101, 1328 e 1438; Ley 35/2006, artigos 17 e 55; Regulamento (CE) 4/2009, artigo 3, e Protocolo da Haia de 2007, artigos 3, 5 e 8; acórdãos do Supremo Tribunal 229/2024, 1634/2025 e 1038/2026, lidos na íntegra). Não é aconselhamento sobre um caso concreto: o regime do casamento, a sua duração, aquilo de que cada cônjuge abdicou e o que cada um tem decidem o que pode ser pedido.
Esta nota é informação geral, não aconselhamento jurídico. Para a sua situação concreta, procure aconselhamento profissional.
A perguntar-se como isto se aplica ao seu caso?
Uma primeira consulta presencial ou por vídeo, em qualquer uma das nossas doze línguas de trabalho.
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